A MENSAGEM DO SR. STEVES JOBS.
Muitas entrevistas concedi (não me esquivarei de nenhuma que se me ofereça) falando de como convivo com o câncer de que padeço a pergunta mais comumente feita é: como você passou a encarar a vida depois da constatação da doença?
Minha resposta: “Agora estou plenamente livre para fazer as escolhas principais da minha vida. nenhuma lamentação a fazer, mas a realidade do câncer me comunicou com duríssima clareza a palavra inédita que por toda vida esperei e soube que um dia a ouviria. Estou dizendo do estado de consciência da fragilidade a que estou submetido quanto a estar vivo ou não logo amanhã”.
E garanto, não são palavras de efeito para causar impacto visto que quase não me importa tal. Importante mesmo é que preciso me colocar a serviço de alguma coisa maior a favor de todos os doentes pacientes de câncer no Amapá, pelo menos.
Acredita-se ou credita-se ao câncer pelo menos um bilhão de anos de existência, a partir de duplicação descontrolada de protozoários. Muito antiga também tem sido a busca da ciência e da medicina por seu domínio e cura conseqüente. A medicina avançou muito lançou luz e muito mais segurança na identificação, trato cirúrgico e clínico dos cânceres em geral. A rádio e a quimioterapia são cruéis “diplomas” do muito que a medicina e a ciência fizeram em favor dos doentes portadores de câncer. É muito mesmo.
Atualmente faço tratamento quimioterápico a cada 15 dias uma seção de aplicação que se prolonga por duríssimas quarenta e seis horas, a partir daí distribuindo seus efeitos benéficos, necessários e benéficos em meu corpo. Porem, cruel e duríssima porque no geral ela me impõe dores no corpo, esquentamento e dormência nas extremidades dos meus membros superiores e inferiores (braços e pernas), alteração drástica dos sentidos, soluço, pequenos espasmos e, pior: no plano emocional todo tipo de pensamentos, medos e planos tem me ocorrido – quase tudo muito assustador.
Agora mesmo, enquanto estou nas ultimas horas da quarta seção quimioterápica (12 previstas) acompanho na televisão as circunstancias de vida e morte do genial Sr. Steve Jobs, desde 2004 lutando contra o câncer que hoje o venceu.
Ele é protagonista principal da imensa genialidade criativa do homem em todos os tempos. Sabemos todos que dos seus inventos resultou uma histórica partilha de épocas da humanidade:antes e depois. Tudo ele fez de grandioso na medida do que imaginou e por isso fez-se muito rico, merecidamente. Certamente tinha ao seu alcance a melhor medicina do mundo, e complementarmente podia privar da amizade ou do convívio dos grandes cientistas do mundo... mas foi vencido pelo câncer que o acometia.
O que, então, podemos imaginar os que estamos doentes de câncer nessa “periferia” nacional que e a Amazonia brasileira, especialmente nós no Amapá? Em que medida nos tem o país, aqui desconsiderando a vigilância severa que nos impõe quanto a conservação florestal, animal e ainda timidamente sobre o uso que fazemos da água?
Tudo aqui é muito esforço para superar carências: emblematicamente não se consegue, há anos, dar funcionalidade ao elevador do Hospital Geral, que conduziria os doentes ao UNACOM (Unidade de Oncologia e Mastologia), onde se acha instalado o único serviço publico de quimioterapia (ainda não se faz radioterapia oncológica no estado). Muitas outras necessidades são presentes e paralelas à luta que cada de nós trava contra a doença instalada. Pessimismo é o que não nos cabe de jeito nenhum, mas já nos causa pavor esperar, esperar, esperar quando esperançar é o remédio mais eficiente que precisamos ter ao alcance.
Mas, pelo menos para mim, tem sido valida essa espantosa experiência. O pouco tempo no pós operatório e de convalescença já me levou a constatações que me impõem compromissos (escolhas)., eis algumas delas: o poder publico no Amapá tem que enxergar as nossas limitações, admiti-las como realidade e não culpa, e obviamente enfrentá-las com o objetivo de ampliar atendimentos proporcionais ao avanço da doença, eficiência do atendimento médico hospitalar e bem estar dos pacientes.
Logo,cuidar o quanto antes para que seja facultado aos que necessitarem e receberem recomendação médica a pronta doação de portocasht (cateter de infusão), agulha de punção especial, bomba de infusão, auxilio alimentar especial, transporte residência/hospital/residência para consultas, exames e quimioterapia, e, mesmo reparos residenciais para os que estão submetidos a sub-moradia, especialmente quando sem banheiro interno. É fácil imaginar o que sofrem os doentes que habitam áreas alagáveis, sobre palafitas, recorrendo a privadas toscas instaladas distante da casa, de uso coletivo e de difícil acesso durante os longos períodos chuvosos anuais, especialmente durante as noites.
Esse assunto já está em discussão no âmbito da Câmara de Vereadores de Macapá, através do gabinete do Vereador Acácio Favacho e também no Tribunal de Contas do Estado por iniciativa do Conselheiro Amiraldo Favacho. Não é pouco, mas precisa ganhar prioridade nos parlamentos e instituições estaduais e federais, sempre, mas essencialmente sempre entendendo que não temos tempo para esperar.
Agora livre como estou para fazer escolhas decidi que devo e posso ser um bom cidadão por causa da doença. As poucos vou deixando para trás a presença física nos acontecimentos culturais que tanto prazer me trás, também vou compreendendo e me acostumando à ausência dos amigos antes do dia-a-dia – é natural.
Mas com isso ou por isso me junto de corpo e alma aos que sofrem de mesma dor, mas que não podem se expressar e - como agora faço - dizer ao Amapá e ao Brasil dessa nossa desafiadora realidade. Anda que “não eleito” falo por eles sempre acreditando que possa alguém nos ouvir...enquanto é tempo.




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